Entrevista a Juiz Joaquim Manuel da Silva, ​ ​ "As Constelações são uma Resposta"

 "As Constelações são uma Resposta"


O Juiz Joaquim Manuel da Silva esteve presente no 1º Congresso Internacional de Constelações em Portugal, que decorreu nos dias 18 e 19 de Outubro e fala aos leitores da Revista Progredir sobre a coragem de abraçar as Constelações e da importância desta ferramenta, no encontro de respostas.

Progredir: Juiz Joaquim Manuel Silva, para os leitores que não o conhecem, quatro palavras que o definem como pessoa?

Juiz Joaquim Manuel Silva: Benfiquista, Pensador – acho que a filosofia trouxe-me isso, Revolucionário, Humanista

Progredir: Fale-nos um pouco do seu percurso?

Juiz Joaquim Manuel Silva: Tenho um percurso engraçado. Aos 19 anos comecei a trabalhar numa farmacêutica multinacional alemã, entrei para a categoria mais baixa e fui progredindo até ao quadro superior. Passei pela produção, vendas, organização e métodos e terminei nos recursos humanos, como chefe de serviços, 18 anos mais tarde.

Aos 20 anos tirei o curso de filosofia, mais tarde, acabou por ser um background para o curso de direito.

Em 1997 convidaram-me para a direção dos recursos humanos. Na altura tive um acidente de viação e deparei-me com a morte. Perante a morte pensei “Vou fazer — como os taoistas dizem — o teu caminho” e não o que era mais confortável. Pensei “Vou fazer o que quero”. Assim saí da empresa, sem nada, com a decisão de seguir este percurso. Hoje agradeço ao acidente. Estas coisas acontecem porque têm que acontecer.

Decidi-me pela área jurídica, concorri ao CEJ e entrei. Senti que esta área das crianças era a minha área. Estive na competência genérica, um ano na bolsa, um ano no crime e a partir de 2005 na família até hoje.

Naquela altura via que os procedimentos eram muito burocratizados, estava tudo no papel, o juiz estava muito distante, perguntava-me onde estavam as pessoas, onde estava o abraço, onde está a relação, e estamos a falar de 1999. Tudo isto que faço diferente hoje resulta de um sentimento que vem desde o CEJ.

Reconhecendo que a forma como a jurisdição trabalha a área da família é agressiva e comecei a fazer inovações e libertar-me de paradigmas que me tinham sido imputados. E comecei a fazer experiência para um juiz de abraço, um juiz que quer sair das paredes dos tribunais e quer usar os meios que estão disponíveis e instalados no meu concelho. A relação com a comunidade acaba por ser fundamental.

Progredir: Como chegam as Constelações à sua vida? 

Juiz Joaquim Manuel Silva: Quando queremos mexer em comportamentos, temos que saber como é que se mexe e de onde vem o comportamento.

Em Direito o conceito de que um comportamento resulta do domínio total da vontade, mas é falso. Porque o que domina é o inconsciente, o inconsciente dos antepassados, os genes dos antepassados que vêm para nós e perduram através de nós.
Não sabendo lidar com isso, fiz uma investigação interdisciplinar — antropologia, neurologia, biologia, psiquiatria, psicologia — fiz uma análise à procura de respostas que me dê eficácia.

E questionei-me o que estaria por detrás destes comportamentos, destas manifestações de negligência ou conflito e mais, como é que eu faço uma intervenção utilizando um processo eficaz. A acessória que é feita atualmente, é uma acessória de declarações individuais e nunca em conjunto, E verifiquei que este tipo de acessória não funciona, é um desperdício de dinheiro e destrói famílias.

Começo a fazer experiencia com técnicas de mediação. Nas conferências, juntava toda a gente e colocava o sistema a funcionar, consegue simula-lo e perceber coisas que não se percebem individualmente.

Em Sintra iniciei com uma terapeuta familiar, em Mafra alarguei a outras terapeutas familiares. Mais tarde através do Sami, um colega do Brasil, conheci as constelações e comecei a interessar-me e a estudar.

Há testemunho de um médico que tinha um problema com os seus filhos gémeos, um dele não o respeitava e através das constelações descobriu que ele próprio não respeitava o seu pai. Após compreender as circunstâncias do pai e honrar o seu pai, o seu filho alterou o comportamento de imediato. Para mim, tem todo o sentido, pelo meu conhecimento da física quântica tudo está entrelaçado. E este entrelaçamento existe também entre pais e filhos. Os problemas que eu tenho e consigo resolver, os meus filhos não vão levar para a sua vida. Os problemas que não resolvo os meus filhos vão levar para resolver.

Decidi experimentar as constelações, conheci a Leonor, que também é terapeuta cognitiva, começamos calmamente, por que somos um país de conservadores. Instalámos uma sala para as constelações e temos tido muito sucesso.

Progredir: Como foi receber o convite para estar presente no primeiro congresso internacional de constelações em Portugal?
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Juiz Joaquim Manuel Silva: É uma honra. Fiquei muito agradado com o convite e o reconhecimento que está subjacente.

Não imaginam a coragem que eu tive. É um reconhecimento dessa coragem, porque não é fácil entrar num sistema tão conservador como o que temos no nosso país.
 
Apesar das resistências, o sistema permitiu-me fazer estas coisas, permitiu-me fazer este trabalho, por isso também temos que honrar o sistema que é independente e que dá independência aos juízes para serem diferentes e fazerem.

As constelações são uma resposta, são muito importantes até para o juiz, isso acaba por influenciar a nossa prática e o nosso olhar e o nosso diagnóstico do que temos à frente.

O grande problema da justiça é ser um sistema escrito, distante das pessoas, e pouco eficaz, demasiado burocrático. Muitas vezes os interesses das crianças ficam desvanecidos no meio dos procedimentos todos.

Somos o país que temos mais equipamentos instalados, temos técnicos, temos meios, mas não estamos a trabalhar com o que temos. Só estamos a produzir, gerar trabalho que é inútil, estamos apenas a formalizar para nos defendermos a nós próprios. Isso vai ocupar o sistema e precisamos de desocupar os técnicos para estarem no terreno para resolver problemas. Precisamos de sair dos tribunais, precisamos de perceber como gerir os meios que temos para ficamos mais próximos, como é que articulamos a autoridade do tribunal com as constelações e outras terapias.

No privado trabalhei em organização e métodos, analisávamos procedimentos, e não aceito os procedimentos por serem procedimentos, mas aceito-os se tiverem racionalidade e foram eficazes.

Se queremos um sistema eficaz, o juiz tem que usar um processo com mais direcionamento, temos que ter procedimentos racionais e eficazes, temos que fazer uma mudança no paradigma das pessoas. O sistema jurídico precisa de responder às necessidades das famílias para as ajudar.

Progredir: Uma mensagem para os nossos leitores?

Juiz Joaquim Manuel Silva: A mensagem pode ser taoista: Centrem-se. Entre o Yin e o Yang tem um centro. E a nossa atividade, na relação com o sistema familiar é procurar essa relação de fusão entre os extremos, e procurar linhas de sincronia e não de dualidade.

Uma criança faz um desenho, ela tem dificuldade em estar com o pai, mas faz o desenho dela de mãos dadas com o pai e faz um desenho, duas vezes maior, de um monstro e descreve-o à terapeuta como sendo o conflito entre o pai e a mãe. Numa criança a relação conflituosa entre os pais é monstruosa e destrói tudo, destrói a infância, o seu desenvolvimento.

A mensagem que posso deixar é: Protejam os vossos filhos de vós próprios. Caminhem para o centro, para a unificação e pela presença de todos na vida da criança e não para terem razão.

Juiz Joaquim Manuel Silva
Congresso Internacional de Constelações: www.congressoconstelacoes.pt