Onde está a minha verdade interna?

Existe coerência entre o que fazemos, dizemos e pensamos? Onde está a verdade que cada um de nós quer prosseguir como ideal na minha vida?

“No passado mês de Maio completei mais um aniversário e escolhi passar esse dia em contacto comigo própria. Senti um chamamento irrecusável para passar esse dia de forma introspetiva, intimista, como se precisasse que o tempo parasse para sentir através do meu corpo a expressão da natureza viva em mim e à minha volta, os cheiros da terra húmida e da horta, os sons dos pássaros, a brisa que acaricia a pele trazendo com ela o fresco da manhã.

Sonhei voltar a ir aos lugares onde tinha as melhores recordações da minha infância. O meu propósito era honrar os bons momentos e memórias do meu passado e trazer de novo à superfície essa experiência genuína de simplicidade, plenitude, comunhão com a beleza que se manifesta a cada momento, no cheiro da terra quando por momentos sentimos essa força de vida a brotar por nós.

Eram 7h da manhã quando me fiz à estrada, acompanhada do meu marido, em direcção à antiga quinta dos meus Avós e depois, São Pedro de Moel. Lugares onde brinquei, explorei, corri, cai, senti, cheirei, onde senti e vivi a beleza das coisas simples a oferecer-me a experiência da verdade de me sentir viva e vida!  

Ao longo da viagem começaram os desafios com o telefone a tocar, o messenger a disparar mensagens de Facebook e a minha mente irrequieta a querer despachar os assuntos para quando lá chegasse finalmente sossegar. Essa é na maioria das vezes a nossa maior traição: faço agora para depois descansar e conseguir usufruir, o problema é que mais tarde não estamos capazes de usufruir porque deixamos de saber fazê-lo e porque entretanto estamos dependentes da sensação que geramos na nossa mente pela falta de tempo e espaço para as coisas que queremos e nos são importantes. Essa sensação cria um vício que ganha autonomia própria e comanda a nossa vida.

Desperdicei grande parte da beleza da viagem nesse movimento interno que se apoderou de mim com uma força bem caraterística.

Mesmo com um propósito tão nobre e firme como o de honrar e visitar dois lugares que considero serem sagrados para mim senti-me irrequieta, dispersa, fogaz, a tentar salvaguardar e conseguir fazer tudo ou seja estar ali e responder às dezenas de mensagens que chegavam.

A certa altura senti que não estava em lado de nenhum e que o meu propósito estava seriamente comprometido enquanto eu aceitasse ter o telemóvel ligado a convocar o meu corpo a sair para fora daquele lugar.

É impressionante como somos levados pelos vícios da nossa mente na inquietude e na ocupação gratuita.

Observo as pessoas nos restaurantes e nas ruas e são poucas aquelas que ainda sabem estar de verdade na companhia umas das outras sem estarem agarradas ao telemóvel a fazer outras coisas enquanto os seus corpos aparentemente se encontram para confraternizar.”

Estamos a assistir a uma mudança de paradigma silencioso que se apodera de nós sem que nos demos conta. Hoje tudo rompe por um simples telemóvel. Qualquer espera de consultório, transportes públicos, restaurante, cinema, etc, é aproveitado por nós para nos alienar do que vibra à nossa volta e mergulhar em teclas e likes!

Estamos a cair numa deslealdade a nós próprios, estamos a deixar de sentir o corpo e os sinais que ele nos envia de desconforto porque ampliamos a nossa energia mental que é usada para tudo!

Como conseguimos praticar verdade se não vivemos ligados à nossa intimidade e não somos leais à nossa verdade interna - ao nosso corpo?

“Como praticante diária de meditação sinto demasiadas vezes o foco da minha mente perder a sua autonomia própria para ficar presa neste frenesim que não faz mais do que gerar dependência, desconforto e cansaço físico e mental.

Sinto que o convite hoje em dia é tão acelerado e tão forte que só com grande compromisso interno e capacidade de nos centrarmos conseguiremos efectivamente escolher e decidir a atitude e o tipo de experiência que queremos viver.”

Reagimos às coisas em vez de as observarmos para escolhermos a atitude certa. O corpo passou a ser um amplificador de experiências em vez de ser um radar que nos denuncia o momento em que nos deixamos ir embora para fora do momento presente.

O convite para a vivência da nossa verdade interna é o mergulho na quietude e na pacificação do nosso mundo interno. Só assim nos deixaremos pousar para escutar, observar e ver de NOVO a magia que brota à nossa volta.

Bem haja à vida!

Maria Gorjão Henriques

Revista Progredir