Procrastinação? Transformar as rotinas em rituais .

O nosso desenvolvimento espiritual depende da nossa atenção e presença no agora. Adiar rituais e propósitos não serve para a nossa vida. É preferível mergulhar no dia-a-dia, na vivência das pequenas coisas do quotidiano para reconhecer o carácter sagrado, mágico e divino que está presente em tudo o que está a nossa volta. Por Maria Gorjão Henriques

A palavra procrastinar significa adiar, deixar alguma coisa para depois. Transferir a realização de alguma coisa para outro momento.

Procrastinamos quando achamos que o nosso desenvolvimento espiritual depende dos cursos, dos livros que lemos, das terapias, dos terapeutas ou que depende de fazermos alguma coisa que seja exterior a nós.

O reconhecimento da nossa dimensão e experiência divina como seres espirituais com uma curta experiência terrena só depende de nós.

Acreditar que amanhã é que vai ser! Só acontece porque uma parte da nossa mente vive de forma infantil e cria a ilusão de que o amanhã vai resolver a minha sensação de incompletude e criar novos ideais de vida.

A ideia de depender de alguma coisa exterior já é por si só um grande acto de procrastinação. Porque nós não controlamos os outros nem o princípio da realidade. Não controlamos o tempo dos outros e as suas disponibilidades. Não controlamos nada a não ser a escolha da nossa atitude a cada momento e mesmo assim, para essa proeza, é preciso estarmos disponíveis e atentos ao que sentimos, caso contrário seremos dominados pelo nosso inconsciente e estaremos a viver por reação a estímulos em vez de viver por ação consciente e presença viva.

Na verdade o nosso desenvolvimento espiritual depende da nossa atenção e presença no agora. Adiar rituais e propósitos não serve para a nossa vida. É preferível mergulhar no dia-a- dia na vivência das pequenas coisas do quotidiano para reconhecer o carácter sagrado, mágico e divino que está presente em tudo o que está a nossa volta.

A Vida acontece se for vivida e para a vivermos precisamos de ter a experiência ao nível da moldura do corpo. A experiência das pequenas coisas da vida é que são essenciais.

O Ser Humano tem ganho ao longo dos tempos a tendência para um movimento para fora dele próprio e esse é o maior ato de procrastinação espiritual ao nível do nosso inconsciente pessoal e mesmo do inconsciente coletivo. As coisas que queremos fazer e que sonhamos fazer tiram-nos e arrancam-nos da simplicidade do sentir a vida a brotar momento a momento dentro de nós.

Os feitos intelectuais que procuramos alcançar retiram-nos da realidade da vida humana, do sentir através das portas dos sentidos, do estarmos vivos e permitirmo-nos sentir o impacto da realidade física da matéria dentro do nosso corpo físico, emocional, mental e espiritual.

Na verdade o nosso desenvolvimento espiritual depende da nossa atenção e presença no agora

Ir ao supermercado que é uma rotina necessária para a maioria das pessoas pode ser uma experiencia extraordinária a vários níveis como por exemplo ouvir as nossas necessidades biológicas – quando perguntamos ao nosso corpo o que ele precisa neste momento para se sentir bem – iremos dirigir-nos para os alimentos que neste momento mais precisamos para equilibrar e dar ao nosso corpo o que ele está a precisar. Observar as pessoas à nossa volta e sentir a nossa disponibilidade interna para as olhar e ver. Todas estas experiências fazem a diferença em relação à forma como vivemos a vida e como nos procrastinamos.

O simples facto de entrarmos nesta proposta transforma uma simples ida ao supermercado (que poderia ser encarada como uma perda de tempo ou de energia roubada a alguma coisa importante que gostaríamos de fazer como por exemplo descansar, fazer meditação ou tomar um chá numa esplanada) numa experiência de presença e comunhão com o que de mais íntimo existe em nós que é a nossa presença e o nosso testemunho de sentir a vida a cada momento.

Transformar as rotinas em rituais é a melhor forma de não nos procrastinarmos por inteiro. Cada coisa que precisamos desenvolver ou fazer na vida tem um carácter sagrado.

Guiar o carro por exemplo pode ser extremamente revelador da forma como vivemos a vida. Sendo o nosso carro o nosso corpo, a forma como o guiamos, respeitamos os limites do carro e os outros, os ajustes que precisamos fazer permanentemente na condução falam muito sobre nós.

Estarmos atentos a esse momento é também receber uma informação preciosa do nosso inconsciente sobre caraterísticas e impulsos que nem sempre estão visíveis na superfície sobre nós e a relação connosco.

Bem haja à Vida!