Renascimento

Basta olhar à nossa volta para ver como a natureza nos ensina a morrer e a renascer para a vida. As árvores despem-se no inverno para dar lugar a novas folhas na primavera. Os frutos caiem das árvores para dar lugar a novas sementes e novos frutos. Quem de nós nunca viu um por do sol e se questionou sobre a velocidade com que a luz desaparece no horizonte? Tudo é impermanente e tudo pulsa através de uma força maior que nos guia em direcção à unidade, à consciência, ao Amor.
 
Sem que tenhamos qualquer controlo, o nosso corpo físico tem milhares de processos por dia onde morrem células para dar lugar ao nascimento de novas células. E o processo repete-se da mesma forma. Caiem cabelos para dar lugar ao nascimento de novos cabelos. A verdade é que todos esses processos acontecem de forma natural e sem que tenhamos consciência, porque movidos por uma força maior, por isso não temos como intervir ou ter livre arbítrio sobre eles. Razão pela qual correm bem!

O mesmo já não acontece quando falamos dos outros corpos designadamente o corpo emocional, mental e espiritual. Os condicionamentos que trazemos e as ideias que criamos sobre a realidade à nossa volta levam-nos a ter experiencias onde deixamos de actuar de acordo com as leis da natureza porque procuramos manter, perpetuar, fixar o que acreditamos que naquele momento é melhor para nós e nos vai trazer mais felicidade. Estamos a contrariar a lei da impermanência e isso leva-nos directamente para o sofrimento. Um dos principais problemas é quando construímos uma realidade que passamos a acreditar porque estamos a ser movidos pelo medo do desconhecido e pela falta de Fé e confiança na forma como somos efectivamente guiados e levados ao colo na nossa vida.
 
Nessa altura, os obstáculos que são colocados a flutuar no universo passam a ser um entrave à nossa evolução e deixamos de aproveitar a sua energia como um processo evolutivo, de transformação e renascimento permanente. No fim de contas não são obstáculos são ajudas espirituais! No entanto, a maioria de nós não está sintonizado com o convite ao renascimento permanente e o obstáculo passa a ser uma parede onde esbarramos e onde perdemos a nossa energia por limitação e incapacidade de ver para além do obstáculo…
 
O sofrimento nasce da nossa tentativa de manter algo que por variadíssimas razões já não existe. Não existe porque o agora está sempre em mudança movido por uma força maior que nunca pára (assim como uma nuvem se forma no céu fazendo, num segundo uma forma conhecida, e no momento seguinte se dissolve). Não existe porque esse momento que queremos viver já aconteceu e por isso está no passado ou foi sonhado por nós e por isso não existe. Sofremos porque tentamos encontrar na realidade o conteúdo, a forma e as expectativas que colocamos e ao não encontrar o que procuramos ficamos apegados e presos à nossa imagem interna. Sofremos porque não estamos a viver a proposta que a vida nos oferece e tentamos viver num tempo e espaço que já não existe a não ser dentro de nós. O choque que esse mundo interno tem quando se confronta com o principio da realidade leva à frustração, ao apego, à avidez, à repulsa, à não aceitação, ao ódio e como consequência ao sofrimento.
 
Falar em renascimento implica naturalmente falar em morte. Porque o renascimento acontece quando nos libertamos e deixamos para trás algo a que estávamos apegados e que não nos deixava viver a vida como ela é.
 
Quando estamos perante um problema, não existe nenhuma solução para ele porque é justamente na compreensão do problema que reside a sua dissolução. Examinar a questão é um processo que só é possível se nos dispusermos à investigação e para que isso aconteça é necessário sairmos do plano emocional, dos condicionamentos mentais que criamos e nos colocarmos como espectadores do filme que está a acontecer na nossa vida, para que possamos deixar de estar vinculados à mente, ao Ego e ao “drama” e deixarmos que o que se quer mostrar tenha espaço para acontecer. Esse é o verdadeiro renascimento! Desde o início que a chave do renascimento tem sido o desapego, o abandono da pele morta, da vinculação aos nossos pensamentos, da libertação das ideias formadas para que possamos viver a realidade que ela se mostra.
 
Renascer é sermos verdadeiros connosco próprios e levar o espirito, como uma vela ao centro da nossa escuridão.
 
Porque na verdade como diz (São Francisco) És aquilo que andas à procura.
 
Bom Ano Novo! Bem haja e Grata à Vida!
Maria Gorjão Henriques